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Em busca de sentido

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Viktor Frankl é fundador da escola da logoterapia, um sistema de psicologia que tem como guia a busca por sentido. Que tem como objetivo discutir e encontrar uma definição para a vida, ou seja, a busca por sentido. A logoterapia é conhecida como a terceira escola Vienense de psicoterapia, sendo a psicanálise Freudiana a primeira e a psicologia individual de Adler a segunda. O autor e pai da escola de logoterapia teve contato ainda cedo com as principais mentes da psicologia Vienense. Ainda novo em Viena, Frankl conquistou seu espaço e dividiu palco com os grandes nomes da psicologia. Porém em 1942 na Segunda Guerra Mundial, tudo estava para mudar. Em setembro de 1942 ele e sua família foram presos. Por serem judeus, foram deportados para diferentes campos de concentração. Dali em diante todas as possíveis barbáries e privações tornaram sua vida um caos. Seus pais e esposa grávida foram enviados para outros campos. Frankl foi enviado para Auschwitz, um temido e conhecido campo de concentração. Não tendo permanecido só em Auschwitz, Viktor percorreu pelo menos quatro temidos campos de concentração. Enfrentado cenários terríveis e de humilhações inacreditáveis. Comercializado como escravo, trabalhou em diversas obras, alimentado com uma sopa rala e um pedaço de pão por dia – quebrou pedra, removeu gelo e por alguns anos que se seguiram foi infligido-lhe dor e tortura nos campos.

Contra todas probabilidades Frankl sobreviveu, sendo solto somente no final da segunda guerra mundial, alguns anos depois de sua prisão. Infelizmente seus pais foram mortos. Sua esposa grávida não resistiu aos últimos rompantes da guerra e dos conflitos do campo. Por fim, nada restou para ele, além de sua própria vida e liberdade espiritual. Sua experiência traumática nos campos deu origem ao livro “Em busca de Sentido”. O livro tornou-se um grande best-seller. Com histórias e ideias marcantes, descobrimos a capacidade humana e seu poder de liberdade interior frente as mais difíceis situações. No livro conhecemos mais sobre a capacidade do homem de escolher manter a liberdade de espírito, mesmo quando seu próprio corpo é prisioneiro e refém do ódio.

Campos de concentração

O autor enfrentou as mais duras privações. Viu centenas de seus parceiros serem mortos ou mesmo desistirem da vida. Escolheu enfrentar de cabeça em pé a realidade. O autor diz que no campo de concentração se pode privar a pessoa de tudo, menos da liberdade última de assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas. Mesmo prisioneiro e impossibilitado de muitas coisas, sempre resta uma escolha última que é se entregar ou manter seu espirito livre.

Frankl passou por diversos campos de concentração, tendo desempenhado inúmeros trabalhos. Enfrentava o inverno Europeu cortante com apenas uma calça e camiseta. Até mesmo de meias e roupas de frio os prisioneiros eram privados. Quando alguém morria, os sobreviventes lutavam pela roupa, bota e outros pertences. Nos campos o olho vivo de Viktor foi capaz de analisar e constatar na prática toda sua teoria e estudos psicológicos prévios, em sua experiência pôde ver a capacidade do homem, seja ela para o bem ou para o mal. Viu com seus próprios olhos onde um homem pode chegar quando exposto a mais profunda humilhação. O choque diário e as brutalidades do campo levaram o autor à reflexões profundas. Observou que mesmo sendo sujeitado a muitas humilhações, sua mente ainda era livre, e sua mente podia vagar para qualquer lugar, qualquer memória e nela buscar sentido. Suas ideias sobre o sentido da vida e suas inclinações existencialistas começam a ganhar corpo e nos campos de concentração ele passa a evoluir seus conceitos. Nas dificuldades do campo e no apoio aos colegas, Viktor encontrou uma direção para suas ideias, e a logoterapia passou a ganhar corpo, substância teórica e prática.

A Logoterapia

A Logoterapia é uma psicoterapia. O termo “logo” em grego significa “sentido”. Sendo a logoterapia uma terapia que tem como objetivo a busca por sentido. Seu criador Viktor Frankl, defende que a maior causa de desistência e enfraquecimento do ser é a falta de ter pelo que lutar. A falta de ter uma direção, um guia. É na busca pelo sentido que o indivíduo se encontra e se posiciona no mundo. Quando temos pelo que lutar, levantar todos os dias e dedicar nossos esforços, somos mais saudáveis e mais propensos à felicidade. A falta de sentido e a dor existencial é um sintoma do nosso tempo. Diante de tantas distrações, ficamos ainda mais distantes de uma reflexão profunda. Vivemos em função do dinheiro, do prazer ou outros objetivos sem uma maior dimensão. O sofrimento quase sempre se torna insuportável pela falta de sentido. Quando sabemos pelo que sofremos, somos capazes de enfrentar de cabeça em pé os desafios. Frankl gosta de citar a seguinte frase de Nietzsche: “Quem tem por que viver pode suportar quase qualquer como”.

É incrível a profundidade dessa frase. Se temos algum objetivo que transcende a nós, podemos enfrentar muitas circunstâncias. E quando confrontados por uma realidade amarga e praticamente imutável, a única coisa que sobra é a “última liberdade humana” – a capacidade de escolher a atitude pessoal diante das circunstâncias. Essa liberdade última é a raiz da filosofia dos estoicos e dos existencialistas, uma ideia marcante no pensamento e história de Frankl.

Atitude frente a privação 

O autor mostra que o prisioneiro frente a privação tinha sempre duas opções: se entregar ou enfrentar a situação e ser livre espiritualmente. Quando Frankl fala em ser livre espiritualmente, ele se refere a tomada de decisão de estar livre em sua mente, de não desistir, continuar nutrindo-se de pensamentos e visões de mundo positivas. Essa linha de pensamento é a guia mestra da filosofia estoica, que tem como premissa a liberdade da mente sobre qualquer sujeição externa. Seja você uma livre pessoa ou um prisioneiro, em sua mente pode escolher ser livre, é uma questão de decisão, de escolha. Entre os relatos do autor um chama muito atenção. Muitos prisioneiros faziam planos e estabeleciam futuro com base em variáveis que lhe fugiam o controle. Como por exemplo, esperar a libertação sempre em determinados períodos do ano. Os prisioneiros começavam ficar ansiosos e com esperança dos americanos chegarem no começo de março por exemplo, porém quando chegava o meio do mês, muitos desistiam da vida, pois a guerra não acabava e a dura realidade dos campos se mantinha amarga. Nesses períodos aconteciam os maiores índices de mortandade nos campos. Independente das expectativas ou do período do ano eles estavam doentes e fracos, mas quando frustrada sua esperança, a falta de ânimo e atitude frente à vida acabava. A imunidade baixava, a entrega era total e poucos dias depois – a morte. Frankl conta que quando um prisioneiro pela manhã, obrigado a levantar para o trabalho, se negava a levantar, e ficava deitado em suas próprias fezes e urina, no frio cortante Europeu, acontecia a entrega. O ponto final e culminante era quando nessa situação eles acendiam seu último cigarro, era uma despedida simbólica, a entrega da mente diante à tragédia.

Nos campos de concentração o autor foi capaz de perceber e validar suas teorias e através de suas experiências percebeu detalhes da natureza humana ainda não analisadas pela psicologia.

A atitude do prisioneiro frente a dificuldade poderia ser duas: ativa ou reativa. A atitude ativa era de resistência mental, cultivo de boas e velhas memórias, esperança no pôr vir e um sentido claro para sua existência, inclusive na dor. A atitude reativa era de desamparo, falta de sentido e entrega. Nela o prisioneiro ia com a correnteza e em um total pessimismo se entregava à tragédia, murmurando suas dores e abandonando a vida.

É claro que a atitude frente a privação é uma marca dos indivíduos que encontraram sentido na vida. Esse sentido transcende sua natureza, ele está fora dos muros, fora das barreiras físicas, fora do seu próprio corpo.

Diante da dor, do desafio ou da esperança, o indivíduo encontra sentido em uma obra por acabar, em uma família para construir, em memórias para serem contadas. O sentido está fora de nós, e através dele podemos nos manter firmes rumo aos desafios de uma vida.

3 formas de encontrar sentido na vida

Viktor Frankl apresenta 3 formas de encontrar sentido na vida. A primeira delas é criando um trabalho ou praticando um ato. Podemos encontrar sentido na vida através de um projeto profissional, uma carreira que tenha profundidade e que confira crescimento pessoal. Ou praticando e desempenhando atos que envolvam a prática e o constante crescimento. A segunda maneira é experimentando algo ou encontrando alguém. Muitas pessoas encontram sentido na vida experimentando algo, a bondade, a beleza, a natureza e através da busca por tornar isso melhor ou compartilhado, encontra sentido em sua jornada. Além de encontrar sentido experimentando algo, podemos encontrar sentido encontrando alguém. Esse encontrar é experimentar o outro através do amor. Seja um cônjuge, seja um amigo ou um filho. Quantas pessoas não falam depois de ter um filho que o único sentido para ela/ela fazer o que faz é o filho. Seu trabalho, suas viagens e seus esforços são sempre direcionados para o filho. É nessa forma profunda, o amor, que podemos encontrar sentido e direção para nossa vida.

A terceira forma é através da atitude que tomamos em relação ao sofrimento inevitável. Quando o sofrimento é evitável, o sentido é acabar com ele, torná-lo inexistente. Não haveria sentido em sofrer, sabendo que é possível exterminar o sofrimento, seria tolo. O sofrimento inevitável que o autor se refere, é aquele que foge do seu controle, que ultrapassa sua capacidade de decisão. Quando isso acontece o indivíduo pode encontrar sentido além da dor. Um caso poderia ser um câncer que não se pode mais operar. Por não ter opção, o autor demonstra que o indivíduo pode escolher viver até seu último minuto. Através de um sentido que transcenda seu próprio Eu. Seja aproveitar cada memória da boa vida que viveu, preservar e cultivar o amor, ou outro sentido que dê suporte a vida do indivíduo, como por exemplo, apoiar pessoas jovens que enfrentam o problema e podem ter maiores chances se acreditarem na vida e no futuro.

Ser feliz ou uma razão para ser feliz ? 

Afinal, será que buscamos ser felizes ou buscamos por uma razão para ser feliz? O autor aponta para a importância do sentido para o ser humano. Muitas pessoas levam boas vidas, de muito conforto e segurança, nelas seu bem-estar é assegurado. Mas muitos desses indivíduos sofrem de depressão e dores existenciais profundas.

Não conseguimos seguir uma vida sem sentido, não uma vida inteira. Podemos até viver um período de dormência, em um coma espiritual, sem notar e sem se questionar sobre a profundidade e valor da vida. Contudo, em um dado momento, todo ser humano é confrontando com essa questão. Antes de querer ser feliz, nós queremos ter uma razão para ser feliz. Ela precisa ser embasada, ter profundidade, significado. Quantas coisas conquistamos e dela não tiramos quase nenhum significado. Passam por nós e nem sentimos mudança.

Gosto de ver a felicidade comparada ao riso. Não adianta você pedir para alguém rir de forma real, cheia e natural, sem ela ter uma razão para isso. Você deve contar uma piada a alguém, dar um motivo, para ter uma risada real. É como tirar uma foto sorrindo, para só depois constatar que nas fotos as fisionomias congeladas eram de sorrisos artificiais. A felicidade real e profunda vem carregada de significado.

A importância do sentido

A dor existencial, a falta de significado, o sentimento de ser “sem futuro”, causa angústia e depressão ao ser humano. Quando vivemos sem orientação para uma meta, empurramos a vida de forma desleixada, não há motivos para sermos nada mais do que já somos. O ser humano só pode existir propriamente com uma perspectiva futura. Fica para nós essa importante lição, tirada do mais brutal cenário: um campo de concentração. Mesmo quando tudo está perdido, é na busca por sentido que podemos superar as dificuldades. Encontrar sentido na vida torna-se um grande desafio. Entretanto, o autor demonstra várias possibilidades e abordagens à essa busca. Podemos encontrar sentido e viver direcionados a uma meta por um determinado período. Podemos em nossa vida ter muitas fases e cada uma delas ser direcionada por um sentido diferente. Se não, podemos cair na armadilha de buscar por um sentido tão complexo e metafísico da vida, que passamos a amargurar a falta de capacidade e profundidade para encontrar esse sentido.

Dessa forma podemos ter metas que nos direcionem a um propósito maior que nós mesmos. Uma carreira que não só traz benefício para si, como conforto e felicidade para as pessoas que amamos. Podemos através de nosso trabalho ganhar dinheiro, mas também afetar positivamente a sociedade. É numa visão maior que nós mesmos que encontramos direção e alicerce para a vida. Uma vida direcionada ao prazer e ao materialismo, infelizmente não se sustenta, ela desmancha no ar e não sobra nada que tenha substância. O ser humano em seu íntimo implora por sentido, por um motivo para levantar cedo, um motivo que vá além de pagar contas e manter o nome limpo. Queremos mais, queremos profundidade, queremos nos sentir importantes e significantes para as outras pessoas, principalmente para as pessoas que amamos.

Notas finais

Um sentido, um motivo para lutar, para continuar vivo, é um fator determinante para a saúde. Nos campos de concentração, nas alas de hospitais com doentes terminais, a escolha pela vida, a decisão, sempre é direcionada por um sentido que vai além do próprio indivíduo. E essa decisão reflete no sistema imunológico. O indivíduo luta, seu organismo luta, ele se agarra a vida e muitos sobrevivem por essa força, essa energia.

Em nossas vidas precisamos mais do que coisas. Precisamos de uma razão, uma direção que nos mantenha de cabeça em pé mesmo quando as coisas parecerem sem solução. O sentido não precisa ser absurdamente grande e transcendental. Podemos viver e lutar por uma memória, por nossos filhos, pais, cônjuges, por uma causa social ou pela arte. Mas não podemos continuar saudáveis e com alto potencial de vida sem visão de futuro, sem um lugar para chegar ou um objetivo para conquistar.

O autor deixa para nós uma reflexão. Reflexão essa a levar para toda à vida. “Viva como se você estivesse vivendo pela segunda vez e como se tivesse agido todo erradamente, na primeira vez como está por agir agora.”

É incrível a potência desse pensamento. Quando estamos irritados ou cheios de ódio por algo, essa é uma ferramenta para utilizar. Pensar que já agimos assim antes, nos coloca em uma posição de análise, nela somos capazes de notar quão passional e horrível pode ser aquela atitude. Por ter errado antes, nossa observação leva ao autocontrole, a não cometer o mesmo erro novamente. E o incrível dessa ideia é que pela nossa capacidade intelectual, conseguimos imaginar algo assim e viver melhor.

Para uma vida inteira, fica claro que o autor acreditou que o amor é mais produtivo, rende mais frutos e garante uma vida de maior profundidade. O ódio é cego e incompleto. Dele não tiramos mais do que neuroses e dores. É em um sentido que nos transcende e nos transborda que podemos viver uma vida de completo potencial e significado.

Livros & Negócios 2018 por MINIMAL