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André Comte-Sponville

A felicidade, desesperadamente

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A felicidade desesperadamente - André Comte-Sponville

O livro do filósofo André Comte-Sponville “A Felicidade, Desesperadamente” (Editora Martins Fontes: tradução de Eduardo Brandão; 148 páginas; 30 reais) traz inúmeras reflexões filosóficas em torno da felicidade e da boa vida. O autor diz que o assunto da felicidade interessa a todos, inclusive aos filósofos, que desde o princípio da filosofia a tinham como objeto de reflexão.

A felicidade interessa a todos nós e a busca pela boa vida é um desafio intenso e custoso. Montaigne em “Ensaios” diz que “não há ciência tão árdua quanto a de saber viver bem e naturalmente esta vida”. Todos nós buscamos ser felizes, até mesmo o homem que comete suicídio busca a cessação do sofrimento. A vida é curta e complexa, e nessa breve estadia precisamos enfrentar um turbilhão de sentimentos, instintos e confrontos com a realidade.

Sponville acredita que o principal papel da filosofia é a busca pela sabedoria e boa vida. A filosofia Grega influenciou profundamente o mundo e a história do pensamento, sendo seu principal objetivo a filosofia moral, ou seja, a filosofia da vida. Sponville define a filosofia com um pensamento calcado profundamente em Epicuro e que diz: “a filosofia é uma prática discursiva (ela procede “por discursos e raciocínios”) que tem a vida por objeto, a razão por meio e a felicidade por fim”. Segundo o autor precisamos da filosofia e da sabedoria por dois motivos: porque somos infelizes e porque somos mortais. Se fossemos imortais não precisaríamos ter pressa, talvez um dia a felicidade chegaria. Mas como somos mortais e infelizes precisamos da sabedoria para poder lidar com as dores da vida. O autor define sabedoria como a alegria na verdade ou a alegria que nasce da verdade, “só é verdadeiramente filósofo quem ama a felicidade, como todo o mundo, mas ama mais ainda a verdade – só é filósofo quem prefere uma verdadeira tristeza a uma falsa alegria”. Já notamos que não basta ter tudo para sermos felizes. Afinal, o que falta para sermos felizes quando temos tudo mas não somos? Falta-nos a sabedoria.

No “Banquete” Sócrates traz uma definição de amor que permeou o pensamento ocidental por séculos. Sócrates define o amor como desejo, amamos tudo aquilo que desejamos, sendo o desejo a falta. Amamos aquilo que nos falta. O carro na concessionária, o notebook na loja, a roupa na vitrine. Desejamos aquilo que nos falta e essa angústia de não ter nos enche de desejo e expectativa. Sponville reflete sobre a felicidade na sociedade moderna, onde a busca por bens materiais e por experiências definem o que é felicidade. Logo, somos felizes quando encontramos o que buscamos, mas logo nos damos conta que essa felicidade foge de nós. Como na reflexão de Sócrates, o amor é por aquilo que nos falta, sendo assim, quando alcançamos o objeto de desejo, ele não nos falta mais, deixamos de ter interesse e a felicidade evapora. O autor fala sobre a criança que durante todo o ano pergunta aos pais quando é o natal. O tempo passa e o natal chega. O interesse da criança pela chegada do natal era o presente. O brinquedo que lhe faltava e que agora vai saciar seu desejo. O brinquedo que a criança amava era o que ela não tinha. Ela tinha muitos brinquedos mas o que queria ainda não estava em sua posse. Chega o natal e com um pouco de sorte seus pais lembram e acertam o presente. A criança voa em direção a caixa e se deleita no brinquedo que faltava. Algumas horas depois o brinquedo está no canto. Não demora nada para a criança chamar pelos pais e perguntar quando é o próximo natal. Ela já tem o que faltava e não é mais feliz pelo que tem. Essa dinâmica desejante é o modo que o homem encara sua vida e sem a sabedoria e a reflexão não é capaz de fugir desse círculo ingrato que desconfigura a felicidade assim que tomamos posse pelo que nos faltava.

O desafio é desenvolver a sabedoria para ser felizes com o que temos. Sponville chama isso de “Felicidade em ato”, desejar o que temos, o que fazemos, o que é – o que não falta. Junto a sua reflexão utiliza um pensamento de Espinoza sobre felicidade e diz que “trata-se de aprender a desejar o que é (isto é, a amar), em vez de desejar sempre o que não é (esperar ou lamentar)”.

O livro “A felicidade, desesperadamente” faz um apelo e uma reflexão pela felicidade na sabedoria. A felicidade desesperadamente, é aquela felicidade que não esperamos, não planejamos e não desejamos. É uma felicidade em ato, que flui na vida e acontece na vida. A felicidade desesperada, não espera nada, des-esperada, “Nada desejo do passado. Já não conto com o futuro. O presente me basta. Sou um homem feliz porque renunciei à felicidade”.

Top 5 Aprendizados

  1. Quanto menos esperamos, maior a chance de sermos felizes.
  2. A felicidade na simplicidade é mais fácil.
  3. A obsessão pelo que não temos rouba nosso coração para as coisas presentes e já conquistadas.
  4. A boa vida exige a busca pela sabedoria.
  5. A vida é tão complexa e curta que merece cuidado e profundidade.
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A felicidade, desesperadamente
André Comte-Sponville
Livros & Negócios 2018 por MINIMAL