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Andrew Keen

Vertigem Digital

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Vertigem Digital - Andrew Keen

Em “Vertigem Digital” Andrew Keen faz duras críticas à grandes conglomerados de tecnologia, poderosos empresários e influenciadores, mas também não deixa de apontar o fraco de nossa sociedade moderna – centrada no eu, vaidosa e carente de relações profundas. Keen provoca, sacode, grita, e nos faz pensar sobre o digital e a diluição das relações e do que significa ser humano no século XXI.

Andrew Keen é polêmico – não é querido no vale do silício e é duramente criticado por muitos magnatas e pensadores da web 2.0. Ele não mede palavras e lança julgamentos pesados e diretos à grandes nomes, como também à sociedade em modo geral. Embora seu tom radical, é possível encontrar muita lucidez em suas reflexões, um pensamento fresco e muito atual sobre o mundo das redes sociais, da centralidade no eu e de um narcisismo generalizado. Em clara oposição às ideias de Steven Johnson e Clay Shirky, autores otimistas da onda digital, Keen acusa-os de inocentes e um tanto cegos para os desdobramentos das inovações tecnológicas na sociedade.

O autor impressiona com seu repertório, dando sustentação à suas reflexões através de conexões com ideias de grandes pensadores como: Foucault, Kafka, Mill e outros. Com uma bagagem cultural rica e um apetite intenso por desmascarar o mundo digital das aparências e vaidade, o autor faz diversos paralelos; o primeiro e central no livro é com o filme e obra de Alfred Hitchcock, Vertigo(um corpo que cai) onde “a vertigem”, a confusão, o caos, se alinha com os tempos atuais onde vivemos uma vida “real” e outra “digital. Mas além disso o autor faz uso de outras referências como a obra “1984” de George Orwell para tratar assuntos como a hipervisibilidade e a privacidade. Há também comentários sobre o “Show de Truman” e a vida aparente que levamos, onde os que nos vigiam veem a projeção de um “eu” que não corresponde ao real, e nessa dinâmica o indivíduo acaba perdendo a própria noção de identidade.

Um trecho marcante da leitura, e uma crítica direta ao livro “O animal social” de David Brooks, é que hoje existe uma supervalorização do social, e o autor comenta que quanto mais atomizadas são as relações, mais nos sentimos atraídos pela ideia do social. Quanto mais o indivíduo evangeliza sobre o digital, sobre as relações, sobre o social, menos ele de fato vive o social e as relações. Sempre desejamos o que não temos, e os indivíduos com apetite para fazer amigos, ganhar likes e criar conexões no digital, tendem ter relações mais rasas e efêmeras. Keen relata no livro a história de um grande empreendedor do vale do silício que basicamente não interage pessoalmente com as pessoas, mas sim através de muitas telas e tecnologia. O autor brinca que embora o empreendedor seja um evangelista da total abertura no digital e inexistência da privacidade, ele mora em um condomínio seguro, muito protegido e não sabe nem o nome dos vizinhos. Keen demonstra o paradoxo que existe no vale do silício, onde os indivíduos pregam o social, mas não vivem ele fora do digital. No mundo real onde existe a decepção, coisas dão errado e há mágoas, eles evitam o contato – Keen satiriza que no mundo real não posso deletar ou deixar de seguir alguém de forma tão prática e desapegada, praticamente indolor como no digital.

Essas inclinações atingem principalmente os jovens, as gerações mais inseridas no digital e que vivem grudadas às telas o tempo todo. As novas gerações conversam menos pessoalmente; algumas análises sugerem que essa é uma forma de se proteger, se fechar, evitando laços profundos e complexos. Em uma sociedade do descartável e das relações instantâneas, todo diálogo íntimo se transforma em algo pesado, e em qualquer decepção a relação é logo terminada, exclui se o vínculo.  

A energia canalizada no digital leva o indivíduo a centrar-se no eu, sempre na busca por demonstrar suas preferências, pontos de vistas, lugares que frequenta, pratos que come e tudo que fortalece sua imagem, numa busca incessante por tornar-se público. Esse apetite vem do que o autor chama de “crack digital” uma droga que causa uma dependência intensa de usuários de redes sociais que buscam likes, amigos, seguidores e vivem o que Keen chama de “economia da fama”. Como complemento para entender a “economia do like” cabe como uma luva a série Black Mirror, em especial o primeiro episódio da terceira temporada (T3 EP01), onde a moeda do mundo é sua popularidade e sua pontuação digital.

O autor embora faça duras críticas à tecnologia, fica claro que ele não é tecnófobo, seu livro é um tapa na cara, um despertar para o caminho que estamos seguindo. Onde nossa intimidade é escancarada no digital, onde indivíduos tiram self pós sexo, foto ao acordar, no banheiro, na privada, não há limites – isso destrói aquela coisa boa do mistério, do segredo e das sutilezas das relações. Tudo precisa ser filmado, escancarado na web, como um mendigo digital, implorando por likes através de suas fotos, declarações de bondade e afins. Keen nos chama para refletir o que significa ser humano e o que queremos para nossa sociedade.

Top 5 Aprendizados

  1. As mídias sociais viraram nosso mundo de ponta cabeça. As relações mudaram, o uso do tempo mudou, a comunicação mais profunda e íntima vem se dissolvendo.
    Temos passado menos tempo com os outros e mais com nossos aparelhos digitais. Temos falado mais de nós do que qualquer outra coisa. As relações têm se tornado rasas e diante de qualquer decepção “exclui-se” o outro, como em um mundo linear, digital.
  2. Na rede o usuário é um produto e as “ponto.com” exploram essa matéria prima a tirar o máximo de lucro.
    Engana-se quem pensa que os impérios digitais são altruístas ao disponibilizar serviços digitais sem custo. Quando você não paga algo, você é o produto, são nossos dados que são comercializados; nossas conversas, compartilhamentos, comentários, tudo isso compõe um banco de dados comercial.
  3. Muitas pessoas no perfil e poucas pessoas na vida real. Será que isso é bom? Será que o ser humano vive bem e saudável dessa forma?Cada vez temos mais e mais pessoas no digital e menos no mundo físico. Será que isso não nos transforma em outros? Será que isso ainda é ser humano?
  4. Caminhamos para a completa exposição, não guardamos mais nada para nós e nosso círculo íntimo, tudo precisa estar na rede.
    Momentos antes que eram sagrados e íntimos, alguns compartilhados no máximo com a família, hoje são expostos para milhões de pessoas em rede. Como vai se dar as relações quando o elemento surpresa, o mistério e as sutilezas forem tragadas pelo uso da tecnologia?
  5. Viver no digital é mais fácil que no mundo real. Isso nos leva a fugir do que causa dor ou tédio para maximizar uma vida “ideal”.
    No digital é fácil ser outro, comentar o que se pensa, e viver uma vida que não corresponde ao real. Esse caminho é perigoso, vivemos um tempo onde os indivíduos “falseiam” fotos para demonstrar que estão bem e na boa em lugares bonitos, fazendo atividades estimulantes e bem vistas pelo grupo.
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Vertigem Digital
Andrew Keen
Livros & Negócios 2018